Se fosse mais novo não tinha dúvidas: “Largava tudo e partia à aventura”. Aos 46 anos, com 13 deles dedicados aos ferraris, José Pinto divide o dia entre a pequena oficina em Baguim do Monte, no concelho de Gondomar, e o sonho em trabalhar nas caravanas dos grandes pilotos.
(Nota introdutória: o interveniente desta reportagem escusa-se a prestar, antecipadamente, qualquer esclarecimento sobre o porquê de nunca ter comprado um Ferrari.) Se lhe perguntam a cor, responde azul. Modelo, F40. Nome, José Pinto. Por esta ordem de ideias. Primeiro o carro, depois o Homem. De fato-macaco surrado, manchas de óleo seco. E mais de 10 horas por dia na Pitcar – “das nove da manhã às oito da noite”.
Se for necessário um certificado de competências, têm-no à mão. “Foram mais de dez anos em formações contínuas na empresa mãe, em Maranello, Itália.” Treze anos – “que não foram de azar” – ao serviço da Viauto, única importadora da marca na região Norte. Entrou em 1987 e saiu em 2000. No entretanto, muitos carros vendidos, muitas anomalias reparadas, “um contacto directo com o Michael Schumacher”, com quem trabalhou durante um Grande Prémio, realizado em Portugal.
Inícios na Lancia
Para o “único mecânico de carros topo de gama” na região do Grande Porto, tudo começou pelos Lancia. “Na altura estava especializado na marca, ninguém apostava na introdução da Ferrari em Portugal. Foi o doutor Calém – o mesmo do vinho do Porto – que introduziu a marca no nosso país”. No idos anos de “80 e muitos”. “A partir de então, sempre que eram lançados novos modelos, mandavam-me para Itália durante duas semanas, assistia à apresentação, recebia explicações de como tudo funcionava, experienciava até à exaustão”. Tudo sob expensas da Viauto. “A Ferrari impõe um código de profissionalismo específico, obriga o importador a ter pessoal especializado a trabalhar nos stands”, a acompanhar a evolução dos protótipos que vão surgindo, que são muitos, “com as mais modernas tecnologias” e “os sistemas de injecção, ignição e suspensão mais avançados”. Deixou os motores Lancia e a aventura começava nos motores mais pesados, V8 e V12. “Em Portugal tudo anda muito mais devagar do que nos outros países europeus. Eu era o único mecânico português presente nas formações”. Entre profissionais brasileiros, americanos e chineses, mais especializados, mais competitivos. Daí a ida a Maranello “extra formação” para aprender mais e responder aos pedidos que chegavam de todo o país. Se contabilizado todo o tempo de formação, “daria cinco, seis anos”. Com os indispensáveis intervalos de tempo “em família”.
Mudança para ferraris
Em 2001, fecha-se um ciclo, abre-se outro, “de 120 metros quadrados, com capacidade para cinco ferraris” em simultâneo. Uma oficina que, apesar de conotada com a marca, tem também “em reparação um Lamborghini, um Mazzerati” e um Fiat Uno. “Se alguém da vizinhança trouxer aqui o carro não digo que não, apesar de estar assinalada como uma oficina para carros de luxo”. Claro que não cobra o mesmo nas duas situações. “Ao Fiat, que aqui está para uma revisão geral, uns 250 euros”. Ao Ferrari azul, “dez vezes mais”. 2500 euros. E pode chegar aos cinco mil. “Este é um carro mais pesado, logo o material é mais caro e as peças são de preço mais avultado”. Silogismo quase perfeito, se cada reparação não dependesse “do bom ou mau estado em que o carro chega à oficina”. Mau estado, mais caro. Bom estado, uma atenção especial ao preço praticado.
Problemas de manutenção
Muitos dos carros que chegam à garagem de José Pinto apresentam “problemas de manutenção gravíssimos” devido à não utilização dos veículos. Ao nível da manutenção de casquilhos, de borrachas, que com o tempo ficam presos e inutilizados. “Os carros mais antigos, por exemplo, não costumam sair das garagens, por medo dos proprietários” em estragarem a pintura. “Saem, muitas vezes, para uma viagem de domingo à tarde, mas sempre com medo”. Medo de conduzir, medo de desfrutar das “preciosidades que têm em casa”. No total, aponta José Pinto, contas de cabeça (bem) feitas, “existem na zona Norte não mais de 50 carros topo de gama”. Médicos, arquitectos, economistas, na “faixa etária dos 30, 40 anos”, são o público-alvo das campanhas de promoção destes novos lançamentos e quem mais consome este “produto”. “Muitas das actuais compras são duvidosas, não se percebe de onde vem o dinheiro”. No fundo, José Pinto até percebe. De há uns anos a esta parte, surgiu, em Portugal, um fortíssimo mercado paralelo na venda de automóveis de luxo. Em revendedores especializados, muitas vezes comprados em segunda ou terceira mão, um Mercedes custa sete mil euros, nunca mais, o que tem contribuído para a desvalorização do mercado de veículos de luxo no Norte do país.
Tal pai, tal filho
“O Ferrari Dino GT, um modelo dos anos 70, custa cerca de vinte mil contos. Tenho também aqui um de 1998, um 355, que custa cerca de 10 mil contos”. Entre valorizações e desvalorizações de preços, surge um contabilista de bancada – ou de oficina. Ou de estrada. “Já andei a 260 quilómetros/hora na Via de Cintura Interna”. Façanha só à mão de alguns. “Mas é necessário uma maior atenção e um cuidado redobrado, uma atenção especial à estrada”. E recomenda que não lhe sigam o exemplo, sob pretexto de uma multa indesejada. O filho segue as pisadas do pai. Não nos diz o nome. Por vergonha, talvez. Prefere trabalhar nos carros a conversar com os jornalistas. Parece receoso de alguma coisa indizível. Trabalha com o pai há já dois anos. “Fui eu que lhe ensinei tudo”. Mas agora quem vai a Itália é ele, o filho, por ocasião dos 60 anos da Ferrari, este ano. Ver as novidades lançadas, experimentar os protótipos, sonhar em acompanhar a Ferrari pelo Mundo fora (onde é que já ouvimos disto antes?).
Sem pudores
Subimos a escada estreita de acesso ao escritório. Tão estreitas que ficamos com a sensação de cairmos a qualquer momento. Causa vertigens. Do alto, confortavelmente instalados (duas cadeiras velhas, uma mesa de madeira tosca, um fio eléctrico a cair do tecto, duas teias de aranha teimosamente presas nos postigo, cartazes pintados à mão com motivos “familiares” - carros, subentenda-se). Num registo mais descontraído (que um mecânico de não fala apenas de carros, pensamos nós), apostamos nas trivialidades. Afoito, revela que “a mulher não tem ciúmes dos Ferraris”, “que já está mais que habituada a esta vida”. Mas não chega perto deles, “nem conduzi-los”. Apesar de, e a acreditarmos nas palavras de José Pinto, “este ser não ser um carro para homens”. “Eu gosto muito de ver mulheres a conduzir um carro topo de gama”. E existem muitas com coragem para o fazer? “No Norte, conto duas a três mulheres a fazê-los”. Sem especificar nomes. Sem ofender anonimatos.
(Nota póstuma: percebemos finalmente porque José Pinto não tem um Ferrari: “Porque nunca ganhei o Euromilhões”. Porque nunca precisou de ter um. Porque usa o dos outros.)
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Oficina de elites
A PitCar, “oficina de carros topo de gama”, está situada na Rua Frei Manuel Santa Inês, na localidade de Baguim do Monte. O gerente, José Pinto. No cartão dado a clientes, surgem as palavras “mecânico, electricista, multimarcas”, atributos do profissional. Um espaço exíguo para tamanha ousadia. “Ando à procura de um novo espaço, na zona de Alfena, com melhores acessos e óptimas oportunidades de negócio”. Até arranjar outro espaço onde possa “colocar dez ferraris ao mesmo tempo”, José Pinto aproveita (ou tenta aproveitar) o espaço da melhor maneira. Uma oficina instalada nas traseiras de um prédio, com acessibilidades “que deixam muito a desejar”: “Tenho que agradecer (e gostava que frisasse isto) ao arquitecto Nuno Coelho pelas preciosas ajudas que temos na manutenção e limpeza deste espaço”. Comprovamos que as esguias curvas que desembocam na porta da oficina não devem ser agradáveis para os amantes da velocidade. Pelo menos, “construíram uma rampa em cimento para facilitar a entrada dos carros”. Muitos deles atingindo 12 mil rotações, “enquanto um carro normal fica-se pelas sete mil rotações”.
Contudo, José Pinto não esconde o sonho que ficou por realizar: “Ser mecânico da Fórmula 1. Trabalhar com o Schumacher e com a comitiva toda nos circuitos mundiais da especialidade. Sentir aquele stress característico das grandes provas”. Aos 46 anos, já sem as ilusões da juventude, deixa “essas aventuras para os mais novos, para aqueles que ainda se podem dedicar totalmente aos automóveis”. José Pinto já tem filhos, casa e uma família para sustentar. “Já passei da validade para essas andanças”. Acalenta a esperança que o filho siga o caminho que ele não seguiu há muitos anos atrás.
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