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Abr 17 2008
O lixo que nós fazemos PDF Imprimir E-mail
Por Póvoa Semanário (Miguel Pinto)   
17 de Abril de 2008
 

A Lipor – Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto – é a entidade responsável pela valorização e tratamento dos resíduos sólidos urbanos produzidos pelos oito municípios que lhe estão associados – Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto e Valongo. Por ano, aí são tratadas as 500 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos produzidas por 972 mil habitantes. Hoje apresentamos-lhe todo o ciclo do lixo.

‘Centro de Triagem’ – Nesta estrutura da Lipor já foi encontrada uma mala forrada com dólares americanos, havendo também registos de armas e engenhos explosivos misturados com os materiais depositados nos Ecopontos


No Centro de Triagem de Baguim do Monte, primeira etapa desta reportagem, recebem-se os resíduos depositados nos Ecopontos e nos Ecocentros [papel, plástico e vidro] em funcionamento nos oito municípios que constituem a Lipor, seguindo-se a sua separação por tipo de material. Depois de descarregados e inspeccionados visualmente pelos controladores, tem início a triagem – fase em que a mão humana quase se confunde com os mecanismos e automatismos que complementam esse processo.

Duas linhas de separação – cada qual com seis operadores que fazem a triagem manual para quatro contentores individuais – são alimentadas por um tapete rolante sobre o qual deslizam as matérias a separar [produtos planos e produtos volumosos]. Concretizado esse passo, papel, plástico e vidro seguem para as entidades promotoras de reciclagem. Segundo os dados mais recentes, a separação dos resíduos e a sua colocação nos Ecocentros e Ecopontos tem vindo a aumentar de ano para ano. Algo a que não será alheia a sensibilização da população para as questões ambientais e para os benefícios da reciclagem.

Diariamente a Lipor trata 40 toneladas de papel e cartão, o que permite evitar o abate de 700 árvores. Anualmente, são recicladas 15 mil toneladas de vidro que irão servir para fabricar 45 milhões de novas garrafas. Ilustrativas da importância da reciclagem são também as 860 toneladas de garrafas plásticas recebidas pela Lipor que, de outra forma, demorariam 500 anos a decomporem-se no solo.

De todos, o vidro continua a ser o material enviado para reciclagem em maior quantidade, seguindo-se o papel e o cartão à frente do plástico e do metal. No Centro de Triagem da Lipor – no qual laboram cerca de 50 funcionários –, o Natal e o Inverno são caracterizados como os piores momentos do ano. Não que o trabalho aumente significativamente, mas porque a qualidade dos materiais é má [papéis de embrulho, laminados e plastificados difíceis de trabalhar] e porque as condições climatéricas da estação [tempo húmido] também não contribuem para um melhor manuseamento dos materiais.

Depois de todo o processo realizado, os materiais separados, com excepção do vidro, seguem para prensagem e enfardamento. Esses fardos de papel mescla, de cartão, de plástico e de metais são depois transportados para as empresas que recebem e fazem o seu reaproveitamento. Da mescla resultará papel reciclado, o cartão recuperado poderá ser transformado em caixas de ovos, por exemplo, o plástico, tal como os metais, servem usualmente para o fabrico de tubagens e de outros materiais relacionados com a construção.

No processo de triagem de materiais há também surpresas que vão sucedendo no dia-a-dia. Uma mala forrada com dólares americanos foi um dos casos mais insólitos com que se depararam os funcionários desse sector que, amiúde, encontram também armas e engenhos explosivos. Nessas situações, as autoridades policiais competentes são chamadas ao local para darem o seguimento legal à descoberta desse tipo de materiais.

E para que não haja qualquer confusão, não será demais recordar o leitor que o papel e o cartão devem ser colocados no Ecoponto Azul; as embalagens plásticas e metálicas no Ecoponto Amarelo; o vidro no Ecoponto Verde; e as pilhas no Ecoponto Vermelho ou Pilhão.


‘Central de Valorização Energética’ – 1000 toneladas de lixo doméstico são queimadas diariamente a temperaturas que oscilam entre os 1000º C e os 1200º C. Dessa operação resulta energia eléctrica suficiente para abastecer 150 mil pessoas


Nesta Central, localizada na Maia, os resíduos não aproveitados através dos processos de compostagem e reciclagem são valorizados na forma de energia eléctrica. Com duas linhas de tratamento em operação contínua e praticamente automatizadas, aí são tratadas cerca de 1000 toneladas de resíduos por dia – o que resulta na produção de 25MWh de energia eléctrica, valor suficiente para abastecer 150 mil pessoas. Desse valor produzido, cerca de dez por cento garantem também a auto-suficiência desta Central de Valorização Energética. Os restantes 90 por cento são distribuídos pela Rede Eléctrica Nacional.

Aquilo a que vulgarmente apelida mos de lixo doméstico – depositado em sacos plásticos nos contentores municipais – é o que está em causa em todo este processo. Esses materiais são queimados em fornos que atingem temperaturas entre os 1000º C e os 1200º C, daí resultando a energia eléctrica atrás mencionada, mas também gases altamente poluentes que são devidamente neutralizados e filtrados antes de serem libertados para a atmosfera, bem como escórias e outras cinzas inertes que são enviadas para confinamento no Aterro Sanitário anexo a esta Central.

O processo de valorização energética começa com as descargas que são realizadas pelos camiões de recolha de lixo dos oito municípios que constituem a Lipor. Esses veículos são pesados à chegada e à saída, encontrando-se dessa forma a quantidade de carga transportada em cada um deles. Com o auxílio de uma ponte rolante e de uma espécie de ‘garra’ gigante, os operadores que laboram numa sala de controlo – na qual todos os processos são monitorizados – garantem depois as manobras de transporte desse lixo depositado na fossa [onde poderá permanecer até três dias] para os fornos de combustão.

Concluído esse processo de queima, as escórias e os outros materiais inertes não combustíveis daí resultantes são mergulhados num tanque de arrefecimento para que possam ser manuseados. Depois disso, escórias e inertes são canalizados para um tapete vibratório, passando também por um electro-íman que garante a sucção de metais como o ferro que, dada a sua riqueza, pode ainda ser valorizado. As escórias não têm, para já, nenhuma utilidade, mesmo que estudos recentes comecem a indiciar que poderão vir a ser utilizadas no fabrico de cimentos ou na construção de estradas.

Além das mais-valias energéticas inerentes a todo este processo, outra das principais vantagens da combustão assenta na redução de 70 por cento do volume total do lixo que aí é recepcionado.

Porém, e em consequência da paragem anual com vista à manutenção da Central Energética, nem sempre é possível a combustão dos resíduos sólidos urbanos provenientes dos oito municípios da Lipor. Nesses casos, a alternativa passa pela deposição no Aterro Sanitário que está anexo à Central de Valorização Energética – constituído por dois alvéolos – que terá capacidade para receber esses resíduos até 2010 – data em que será selado e recuperado paisagisticamente. Nessa altura, deverá já estar pronto a funcionar o novo Aterro Sanitário que ficará situado na freguesia de Laúndos, na Póvoa de Varzim. Além do lixo em bruto, este tipo de estrutura recebe também as escórias resultantes do processo de combustão.

Não se pense, no entanto, que estes Aterros Sanitários se afiguram como espaços de simples depósito de lixo. Muito pelo contrário. Aí são respeitadas todas as apertadas normas de segurança e de higienização que salvaguardam o meio-ambiente, impedindo a sua contaminação. Todo o Aterro é estanque, o que assegura a protecção dos solos e dos cursos de água, numa acção complementada por águias e falcões – aves que sobrevoam o local dissuadindo a presença de roedores e outros animais que poderiam comprometer a segurança do aterro. O programa de monitorização dessa estrutura garante ainda o controlo de todos os resíduos sólidos, bem como os lixiviados e o biogás daí resultante. Numa última fase, esses lixiviados são tratados biologicamente, tendo como resultado final um efluente livre de carga orgânica, sais minerais e metais pesados que pode, dessa forma, ser utilizado no sistema de rega e na manutenção dos espaços verdes envolventes.


‘Central de Valorização Orgânica’ – Na Póvoa de Varzim, a Câmara Municipal promove um circuito que envolve 102 restaurantes, cantinas e outros espaços similares, recolhendo 100 toneladas/mês de resíduos orgânicos que são tratados na Lipor


Outra das etapas desta reportagem envolvendo as estruturas que constituem a Lipor desenrolou-se a partir da Central de Valorização Orgânica que funciona também em Baguim do Monte. Recebidos por Susana Lopes – responsável pelo Departamento de Novos Projectos e ainda pelo funcionamento e exploração central, conhecemos este espaço que "recebe resíduos orgânicos e verdes que depois sofrem um processo de compostagem e são transformados num composto denominado ‘Nutrimais’ – "produto com elevado valor agrícola que é comercializado, valorizando-se a matéria orgânica", explicou a técnica.

Esta Central, está aquartelada num edifício moderno que, anualmente, permite a valorização de 60 mil toneladas de matéria orgânica proveniente da recolha selectiva de resíduos biodegradáveis, traduzindo-se na produção de cerca de 20 mil toneladas/ano de correctivo orgânico (composto) de elevada qualidade.

Esta unidade de compostagem, que começou a sua actividade em Maio de 2005, funciona com base em quatro operações: a recepção dos materiais e preparação da mistura; compostagem e maturação; afinação do produto; e armazenamento e sacagem.

Susana Lopes mostrou-nos de que forma esta unidade funciona, num processo que se distribui por dois edifícios separados: Um espaço administrativo, que envolve também laboratórios (onde se realizam análises que garantem a normalidade do processo de compostagem) e um auditório (que pode ser arrendado por entidades exteriores à Lipor). O outro espaço destina-se ao tratamento mecânico, biológico, de maturação, de armazenamento e sacagem.

A este nível, e a título exemplificativo, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim promove um circuito que envolve 102 restaurantes, cantinas e outros espaços similares que, segundo Susana Lopes, resulta numa recolha mensal de 100 toneladas de resíduos orgânicos, representando a média de uma tonelada por estabelecimento.

E que tipo de resíduos podem ser recolhidos? Além dos restos de comida, a Central acolhe ainda o que deriva, por exemplo, dos mercados abastecedores do Porto, Bom Sucesso e de Matosinhos, estando para breve a inclusão do Mercado Municipal da Póvoa de Varzim nesse circuito de recolha.

Desses espaços chegam matérias como frutas e legumes, bem como restos provenientes dos talhos e das peixarias. Segundo Susana Lopes, a Lipor tem ainda protocolos celebrados com os hipermercados localizados na zona, centros comerciais do Grande Porto (Praças da Alimentação) e ainda trata as matérias orgânicas produzidas ao nível das cantinas de grandes empresas.

Neste processo entram também os resíduos oriundos dos Ecocentros. A Póvoa de Varzim tem um, localizado em Laúndos, que permite reencaminhar para Baguim do Monte relvas, ervas, plantas e flores, não só de uso doméstico como de estabelecimentos ou empresas. Uma outra curiosidade é que a Lipor recebe os resíduos dos cemitérios. "A Póvoa tem esse circuito", explicou Susana Lopes, que avançou ainda que há uma triagem "em que se retiram os copos plásticos e as ceras". Os restos são depois encaminhados para a Central que, diariamente, recebe entre sete e dez toneladas de resíduos verdes provenientes dos cemitérios.

Na prática, o processo de compostagem desenvolve-se por 18 túneis, sendo que a temperatura no seu interior pode variar entre os 50º C e os 60º C de forma a "garantir que o produto seja higienizado". Para evitar que o betão do edifício seja sujeito a mudanças de temperatura consideráveis, no telhado existe uma lâmina de água, com uma altura de cerca de 30 centímetros, que cobre toda a superfície dos túneis. "É uma forma de podermos controlar as forças térmicas interiores e exteriores. No telhado existem também sondas que regulam todo este processo e passam a informação para o sistema informático", explicou Susana Lopes.

Outra situação que a técnica fez também questão de sublinhar tem a ver com a produção de cheiros para o exterior "que é inexistente". Como é que isso é conseguido? "Há uma renovação de ar no interior da instalação, a armazenagem do produto acabado está em edifico fechado e todo o ar sujo dos túneis e áreas acessórias é recolhido, enviado para um tanque onde é lavado e depois filtrado. Todo este processo é natural, sendo que, deste modo, não há qualquer tipo de impacte ambiental ao nível do exterior", explicou aquela responsável lembrando que, "apesar de todo esse cuidado, também são feitas medições de odores no exterior do edifício".

Os sacos plásticos demasiado finos, o vidro que se parte e é difícil de remover, assim como o material ferroso e as pilhas são alguns dos produtos que não devem ou não podem fazer parte deste circuito. Este processo de tratamento passa então por uma área de túneis onde são recepcionados os resíduos. No total são 18 – cada um com 53 metros de comprimento, 26 metros de largura e cinco metros de altura –, comportando 200 a 220 toneladas de material. Todos são monitorizados e autorizados na ‘sala de controle’. Dentro de cada túnel o material fica depositado quatro semanas passando depois para a nave de manutenção, onde permanece ao longo de um período de quatro a seis semanas. Aí estabiliza a temperatura, sabendo-se se está em condições para ser armazenado e, posteriormente, comercializado, surgindo, no final, com aspecto de terra. "Todos os contaminantes, ao longo deste sistema, são retirados através de crivos, electro-ímans, sucção (aspiração) e separador balístico (retira, através do peso, as pedras e os vidros)". Mas "quase tudo é feito mecanicamente monitorizado e as ordens são dadas através de computador".

Nesta Central faz-se também o tratamento das águas das chuvas (pluviais). Na cobertura recolhe-se essa água que, explicou Susana Lopes, "sempre que necessário, entra no processo". E deu outro exemplo curioso. Quando há uma descarga de sete toneladas de melão, duas a três, são água. A central faz a recolha dessa água que, depois, é reutilizada.


‘Centro de Compostagem Caseira’ – A Horta da Lipor serve de exemplo daquilo que também pode ser realizado nas casas que disponham de espaço com terra. A compostagem caseira reduz o lixo doméstico e serve como fertilizante


Uma outra zona da Central de Baguim do Monte é ao ar livre e denomina-se "Centro de Demonstração e Compostagem Caseira". Nesta visita fomos acompanhados por Aldora Pinheiro, técnica superiora ao serviço do departamento de valorização orgânica (área da compostagem). Naquele espaço, aberto ao público, as pessoas podem fazer acções de formação. E é na ‘Horta da Formiga’ que se fazem demonstrações de compostagem caseira. Ali podem encontrar-se compostores nos quais são depositados resíduos orgânicos – relvas, restos de frutas e legumes, borras de café, entre outros. Uma actividade já implementada na Póvoa de Varzim e que está a ser feita, não só em algumas escolas, mas também pelos particulares que possuam espaços adequados. Quatro a cinco meses, é quanto demora a transformação do produto em composto (terra) – "processo acelerado pelas minhocas, caracóis e outros bichos". O resultado da compostagem é depois usado, explicou Aldora Pinheiro, "na horta e na zona das plantas aromáticas e medicinais" que existe naquele local. E ali pode encontrar-se de quase tudo. Alfazema, rosmaninho, hortelã-aquática, rabanetes, alfaces, alhos, couves, cebolinho, salsa, tomilho, funcho, caril, cidreira, limão, limonete, tangerina, ameixas, pêssegos, são apenas alguns exemplos da variedade hortícola e florícola aí produzida, demonstrando assim outra das facetas do ciclo do lixo, no contexto do ciclo da vida.

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