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Abr 20 2008
Foi há 4 anos que tudo veio a público PDF Imprimir E-mail
Por O Record (E.Q.)   
20 de Abril de 2008
 

Dia 20 de Abril de 2004. Portugal acordou com a notícia de um grande caso de corrupção no futebol português. Valentim Loureiro era um dos detidos numa operação que varreu todo o país e que mobilizou meios nunca vistos. Quase um ano depois de ir para o terreno, a Polícia Judiciária do Porto mostrava o jogo, com buscas e mandados de detenção. O caso viria a ser conhecido por Apito Dourado, nome que veio a propósito de pequenos apitos apreendidos. A investigação começou por centrar-se na época desportiva do Gondomar SC de 2003/2004, que culminaria com a subida à II Liga deste clube, após aceso despique com os Dragões Sandinenses (que terminaram o campeonato a um ponto do rival), mas no decurso das investigações divergiu para outros temas a partir do momento em que os telemóveis de Valentim Loureiro, João Loureiro e Pinto da Costa, entre outros, foram colocados sob escuta.

O que se conheceu no dia 20 de Abril de 2004 era apenas, pois, a ponta do icebergue. Com Valentim Loureiro, então presidente da Liga, a ser indiciado de crimes de corrupção sob a forma de cumplicidade, por alegadamente se servir de Pinto de Sousa, então presindente do Conselho de Arbitragem da FPF, para conseguir que o Gondomar SC escolhesse árbitros para os seus jogos. José Luís Oliveira, presidente do Gondomar SC, desde o início que é o principal arguido do processo, foi o último a ser ouvido - numa maratona de 4 dias de interrogatórios no tribunal de Gondomar, a cargo da juíza Ana Cláudia Nogueira - e foi detido preventivamente, passando posteriormente à situação de prisão domicilária, até expirarem os prazos para a prisão preventiva. Francisco Costa, António Henriques e Luís Nunes, outros elementos do Conselho de Arbitragem da FPF, também foram detidos para interrogatório, bem assim como alguns árbitros de 2.ª categoria. Todos, dirigentes e árbitros, foram suspensos dos cargos que ocupavam mas apenas Pinto de Sousa e António Henriques se demitiram dos mesmos. Valentim Loureiro, por exemplo, regressaria à presidência da Liga depois da extinção dos prazos das medidas cautelares e Francisco Costa continua a ser vice-presidente do Conselho de Arbitragem da FPF.

O caso arrastou-se em recursos e a acusação só seria produzida em Janeiro de 2006 por Carlos Teixeira, o procurador que desde o início acompanhou o processo, determinando a intervenção da Polícia Judiciária. Um ano depois, o juiz de instrução Pedro Miguel Vieira elaborou o despacho de pronúncia que levou a julgamento 24 arguidos. O julgamento está a decorrer, desde o dia 11 de Fevereiro, no tribunal de Gondomar e esta semana foi ouvida a 100.ª testemunha, durante a 28.ª sessão, presidida pelo juiz António Carneiro da Silva.

O julgamento

O julgamento que está a decorrer em Gondomar deverá terminar no final de Junho. As testemunhas de acusação já foram ouvidas e já chegou a vez das testemunhas de defesa. Na próxima 3.ª feira será a vez de Pinto da Costa estar no tribunal de Gondomar, para rebater acusações produzidas por Carolina Salgado a propósito de jantares onde Pinto de Sousa, Valentim Loureiro e Pinto da Costa tratariam de assuntos relacionados com os árbitros para os jogos do Gondomar SC.
Os 24 arguidos continuam ser falar - um direitos que os assiste - e a sua defesa tem marcado alguns pontos, nomeadamente nas perícias que foram feitas aos jogos do Gondomar SC por Vítor Pereira, Jorge Coroado e Adelino Antunes. Perícias que estão longe de ser concludentes em relação a erros premeditados dos árbitros que tivessem favorecido o Gondomar SC, tendo o tribunal apurado mesmo que esta equipa foi em alguns momentos prejudicada pelo trabalho de alguns árbitros que também se sentam no banco dos réus.

Também na questão das contrapartidas não está fácil o trabalho da acusação, que está a ser conduzida pelo procurador Gonçalo Silva, com o apoio de Carlos Teixeira. Diversas testemunhas têm afirmado em tribunal que todas as outras equipas da II Divisão B também ofereciam lembranças aos árbitros, como era o caso dos Dragões Sandinenses - assistente no processo, reclamando uma indemnização de 3,08 milhões de euros -, que oferecia relógios de marca aos árbitros. Na casa de um deles, Pedro Sanhudo, foi mesmo encontrado um desses relógios com um cartão de um dirigente dos Dragões Sandinenses. A favor da acusação foram, porém, os depoimentos dos ourives que forneciam o Gondomar SC, tendo um destes confessado que chegou a fazer as entregas de voltas e pulseiras em ouro nos dias dos jogos e que este tipo de artefactos se destinavam aos árbitros dos jogos do Gondomar SC.

Importante no processo será também conseguir demonstrar não só que o Gondomar SC escolhia os árbitros para os seus jogos - através de Valentim Loureiro e Pinto de Sousa - mas também que estes adulteraram a verdade desportiva no campo e que as contrapartidas que receberam eram isso mesmo e não apenas uma simples cortesia, dentro dos parâmetros da UEFA, que determina como limite máximo para as prendas 120 euros (200 francos suíços). A acusação tem sentido grandes dificuldades para conseguir reunir todas estas factualidades.

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